Sou apaixonada por objetos antigos. E, como todo mundo que costuma garimpá-los, vira e mexe vou para as principais feirinhas de antiguidade à caça de móveis ou utensílios para minha casa.
Há dois anos, enquanto procurava nos antiquários do Bexiga um guarda-roupa Art Nouveau, acabei encontrando em um sobrado amarelo, próximo viaduto da Treze de Maio, não só o móvel que sonhava ter em meu quarto, mas um lugar que me faria voltar muitas outras vezes.
É claro que eles têm muita coisa bonita para mostrar, Seu Antônio tem praticamente uma compulsão por adquirir mais móveis, e os acha em qualquer canto da cidade. Só isso já seria um ótimo motivo para se ir lá sempre, mas o que mais cativa as pessoas é a forma como elas são atendidas. “Papo de vendedor” por lá passa longe.
“Um dia chegou aqui um homem procurando uma escrivaninha. Mostrei uma Cherife que tinha no momento e ele gostou muito. Ele poderia ter levado a peça na hora, era negócio fechado, mas percebi que aquele sujeito não estava muito bem, e a minha curiosidade por ele fez com que eu puxasse uma conversa. Ele estava de mudança para Recife e tinha muita pressa, queria que eu fizesse a entrega no mesmo dia. Até ai, tudo bem. No fim ele me disse que queria transformá-la em um bar. Achei a idéia estranha e sugeri que ele levasse um Etajer (tipo de aparador para sala de jantar) e mostrei para ele um que tinha lá em cima, com uma pedra de mármore rosa. Ele se apaixonou e o comprou no ato. Acabou voltando aqui outras vezes, comprou duas poltronas e as levou com ele para Recife, desmontadas, no avião. Achei muito engraçado! Não gosto de sair empurrando o que tenho, gosto de entender o que as pessoas precisam“.
Seu Antônio fica até bravo com o Marcelo, mas sempre acabam se entendendo. Eles se conheceram em Santos, num momento em que Marcelo estava passando por uma crise com a sua profissão de arquiteto, pois eram poucos os projetos que apareciam. Naquela época, Seu Antônio tinha uma loja no Embu das Artes. Marcelo começou a trabalhar na loja nos fins de semana e, em pouco tempo, convenceu seu Antônio a mudar o negócio para São Paulo. Encontrou um sobrado detonado no Bexiga, assumiu toda a reforma e deixou o lugar com a cara que queria.
O casamento entre Marcelo e Seu Antônio foi perfeito, as referências artísticas adquiridas pela formação em arquitetura complementavam o negócio. Além disso, Marcelo e Antônio tinham mais uma coisa em comum, o amigo Victor, que passou a ser um visitante assíduo do antiquário.
Seu Victor é um senhor de oitenta e seis anos, que se nega a ficar em casa, curtindo sua aposentadoria. Aproveitou seu tempo livre para dar uma ajuda aos amigos e hoje é considerado por Marcelo o “mascote” da loja, já que não deixa de ir lá nenhum dia e trabalha voluntariamente.
“Eu venho aqui porque gosto. Eles são a minha família. Outro dia fiquei doente e foram eles que cuidaram de mim”, diz emocionado.
De um ano para cá, o trio passou a contar com uma representante feminina, a Sidney. Ela trabalha como voluntária do bazar da Achiropita e os ajuda nos finais de semana, quando o movimento é maior, e nas segundas-feiras, quando Marcelo costuma fazer as entregas. Vaidosa, como não poderia deixar de ser, foi correndo para o espelho quando saquei minha máquina fotográfica da bolsa! “Vocês não querem que eu saia na foto sem baton, né?”
Com o tempo, Marcelo acabou resgatando uma antiga herança de sua família. Seu avó era marceneiro e por isso aprendera desde muito cedo a lidar com a madeira. Juntando isso à arquitetura e aos seus conhecimentos sobre mobiliário, passou a restaurar móveis e, desde então, nada é vendido em mal estado. “Eu vejo como está a peça. Penso nela como uma cenografia. Às vezes, uma mala toda amarrotada me parece mais interessante em seu estado natural e, quando é assim, eu a preservo. Só faço consertos e ajustes quando julgo que não vai descaracterizar o objeto”, diz.
Mas além de consertar objetos, Marcelo também os reinventa. Peças adquiridas em ferro velho, pedaços de metal, vidro e madeira viram coisas lindas nas suas mãos. Quando estava lá, pude ver uma luminária que ele tinha feito recentemente. Eu mesma já comprei um criado mudo que passou por um processo parecido. Seu Antônio havia comprado uma peça incompleta, uma colméia arredondada com uma única gaveta, numa de suas andanças pela cidade. O formato redondo daquele aparente criado mudo o chamou a atenção. Quando Marcelo recebeu a peça ficou mais uma vez irritado com as compras por impulso de Seu Antônio, mas se dispôs a inventar alguma coisa. Resolveu criar pés palito para ele, achou que ficaria com um ar de anos cinqüenta, e assim o fez. Quando ficou pronto acabou se lembrando de mim, que sou aficionada por esses tais pezinhos. Deixou o móvel guardadinho, esperando o próximo domingo que eu aparecesse. Não deu outra, lá fui eu com mais um pé palito pra casa!

Todos reunidos na entrada da loja. Da esquerda para direita: Marcelo, Seu Victor, Sidney, Marcos, Delisson e seu Antônio, sentado.
Para conhecer esta casinha amarela e suas histórias, é só ir a Treze de Maio, 950. Bela Vista (Tel/fax: 3253-7521). Ao contrário da maioria dos antiquários da região, eles funcionam durante toda a semana.



1 resposta Até agora ↓
Camila // Julho 22, 2008 às 2:15 pm
Baby, eu já tinha assinado o RSS desse blog tb
Tenho uma veia hacker, não sabia? Beijos!